09/05/2012

:: O DIA EM QUE CONHECI O 917/013 ::

Sexta-feira, nove e meia da noite. Um Boeing 737-800 leva-nos do Porto para Barcelona. Amanhã é dia grande na cidade catalã; joga-se o clássico Barcelona – Real Madrid!

Apesar disso, nos 3 dias que passamos lá, nem sequer nos aproximamos do campo. O nosso estádio também tem bancadas e muito público, mas a relva foi substituída por asfalto. E os sprints do CR7 são esmagados pela velocidade de potentes motores V8. Bem-vindos ao Espíritu de Montjuïc, um festival de clássicos onde os F1 dos anos 70 e 80 são reis e os Protótipos, GTs e Turismos de 60 até aos anos 90 são a guarda de honra deste evento.

Está, no entanto, no paddock um motivo que desde logo me capta a atenção. Elegante, mas com umas ancas largas, vestido de azul claro e com uma sóbria tira laranja, tem as medidas perfeitas do meu sonho. Passo por ele várias vezes, olhando-o descaradamente, mas ele mantém a sua pose, majestosa e indiferente. Mais uma volta e não resisto, sento-me ao lado dele e meto conversa.















- Olá, sou o Ruic’s.
- Viva, eu sou o 917/013.
A voz é poderosa e nota-se nos olhos dele uma vida cheia de emoções; sucessos, fracassos, ódios e paixões. Mas hoje em dia está calmo e com a idade todos aprenderam a respeitar o seu enorme potencial e é visto agora com muito carinho.

- Diz-me, seres o 13 não te trouxe inconvenientes?
- Depende da perspectiva. Tive muito sucesso, mas também tive a minha dose de infortúnio... Sabes, comecei por ser um aprendiz. Em Janeiro de 1970 enviaram-me para a Florida onde se corriam as 24h de Daytona. Eu pertencia á equipa do John Wyer Automotive e nessa ocasião servi apenas para testes. Durante a corrida fiquei por ali, no paddock, caso a equipa precisasse de peças. Voltei para a Alemanha e dois meses depois regressei aos Estados Unidos para correr nas 12h de Sebring. Os meus pilotos foram o Pedro (Rodriguez) e o Leo (Kinnunen). Estávamos à frente quando me aleijei e estive muito tempo parado nas boxes. Acabamos em quarto lugar e fomos, mesmo assim, o melhor dos Porsche.















- Foi uma estreia cheia de emoções. E a seguir?
- A seguir fui vendido à Solar, a empresa de produção do Steve McQueen. Na altura estavam a rolar o filme “Le Mans” e eu fui para lá como actor.

- Fantástico! Conheceste muita gente famosa, não?
- Sim, eu era o “21”, mas no meio que eu frequentava isso já era habitual. Sempre me relacionei com as pessoas mais influentes daquela época. Mas a minha história em “Le Mans” terminou mal.

- Sim? Que aconteceu?
- Um dia o David Piper estava a guiar-me para efectuarmos um “take” relativamente simples. Isto foi entre Arnage e Maison Blanche e repentinamente perdi o equilíbrio e bati com muita força nos rails. O pobre do David quase morreu (ficou mesmo sem uma perna) e eu todo partidinho. Voltei para casa onde fui recomposto com peças do meu irmão 034 e só em Janeiro do ano seguinte é que voltei às pistas.

- Novamente na equipa JWA?
- Sim, voltei à equipa apoiada pela Gulf. Como vês, esta roupa sempre foi a minha.

- E continuas com bom aspecto, sem muitas rugas.
- Obrigado; esta técnica de construção em fibra também ajuda a manter a dignidade.















- E então, como correu o ano de 71?
- Muito bem. Em Janeiro voei até aos Estados Unidos para as 24h de Daytona. Foi uma corrida muito stressante.

- Conta lá.
- O Pedro voltou a guiar-me e conseguimos o segundo lugar nos treinos. Na frente ficou aquele Ferrari 512 da Sunoco...

- Sim, da equipa do Roger Penske.
- Esse mesmo. Era pilotado pelo Mark Donohue e andava muitíssimo. Muito mais que os 512 de fábrica, impressionante. Mas na corrida, eu com o Pedro e o Jackie Oliver fomos para a frente. Eu tinha mais capacidade que os italianos, he, he.

- Sim, vocês sempre foram muito resistentes.
- Mas a faltar 4 horas para o final, fiquei com problemas de caixa. Tive que parar para a substituirem e perdi o comando. O Pedro voltou à pista com uma volta de atraso para o Tony Adamowicz no spider 512S. Entretanto começou a chover e atrasamo-nos. Mas o Pedro não gostava de perder e forçou-me a andar até chegar novamente à frente, faltavam 45 minutos. Ganhamos com uma volta de avanço, ao fim de 24 horas de prova!

- Sim, deve ter sido uma grande prova, com muito esforço.
- Em Abril fui até Monza, correr os 1000Km. Aqui, nova vitória com o Pedro e o Jackie. E em Junho, na Áustria, mais 1000Km e outra vitória. Também com o Pedro e o Richie (Attwood)!

- Fantástico. O Pedro era um grande piloto sem dúvida!
- Em Zeltweg (Áustria) o Pedro estava imparável. Fez a pole, ganhou a corrida e fez a volta mais rápida.

- Muito bom!
- Para finalizar o ano, corri em duas provas extra-campeonato. Em 12 de Outubro vim até aqui, a Montjuich, correr nos 1000Km de Barcelona.

- A sério?!
- Terceiro tempo nos treinos e segundo lugar na corrida, atrás do Lola T212 do Bonnier e do Ronnie Peterson. Quem correu comigo desta vez foi o Derek Bell e o Gijs van Lennep. E cinco dias depois estava em Montlhéry para os 1000Km de Paris. Novamente com o Derek e o Gijs, partimos de terceiro e ganhamos mais esta prova de 6h!

- Estou sem palavras...















- Como vês, ser o 13 nem sempre é sinónimo de má sorte.

- E hoje em dia, onde estás a viver?
- No Reino Unido. O meu dono é o Mark Finburgh e costuma levar-me com ele a estes eventos clássicos.

- Bem, foi um enorme prazer conhecer-te 917/013. Espero voltar a encontrar-te noutro evento semelhante. Já agora, posso tirar uma foto contigo?
- Claro, senta-te aqui ao meu lado...

6 comentários:

Rui Mota disse...

Fantástico Rui.
Apenas me assolam algumas questões. Será mesmo o vencedor de Daytona de 71?
Provávelmente terá sofrido algumas modificações, já que a carroçaria se apresenta com algumas divergências, como são o caso da perda da janela superior, acima do pára-brisas e também colocação de tomadas de ar do capôt-motor, não no sítio correspondente àquele modelo. Mas tudo é possível, pois eram bastante modificados de prova para prova, apesar de estranhar a indiferença da marca perante o êxito americano.

Um grande abraço e parabéns pelo excelente trabalho.

Ruic's disse...

A questão do vidro suplementar é explicado pela inclusão deste artifício apenas na prova de Daytona. Depois era retirado. Também quando sofreu o acidente em Le Mans, ficou partido ao meio, logo a reconstrução levou muitas peças novas (do #034). Finalmente, naquela altura nem as fábricas preservavam os seus protótipos, vendendo-os logo no final da época para recuperarem algum capital. Mesmo o icónico 917 que venceu Le Mans pela primeira vez para a Porsche foi guardado! (O modelo que está no museu é uma réplica pintada com as cores da Porsche Salzburg "look" LM70).

Adelino Dinis disse...

Rui, muito fixe o texto. Uma ideia original bem concretizada. Parabéns. Um abraço. AD

João Tenente de Seixas disse...

LIKE !!!

cavalo disse...

gostei de ler, este carrinho vai ser uma das minhas próximas compras, 1/32 claro ;) abraço Rui

Z. disse...

Adoro (tudo, o texto e a máquina). :)